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Por André Viana I Ilustração Joana Lira
Eu não sabia ainda que aquela voz de Gabeira era a voz de Matinas Suzuki, e no entanto ali já era o japonês, em off, atiçando a lenha da memória musical de Caetano Veloso, instigando-o a relembrar sambas de sua infância em Santo Amaro da Purificação. Dezessete anos depois, descubro que aquele documentário tem na minha vida o mesmo poder de uma fotografia na parede. Uma fotografia esquecida na parede que numa tarde quente de outubro, ou mesmo enquanto passo distraidamente o café na cozinha, volta a piscar suas luzes, feito um neon defeituoso que se reanima subitamente depois de anos. Digo isso porque agora mesmo, enquanto cato esses feijões, assisto uma vez mais ao Circuladô, de José Henrique Fonseca e Walter Salles Jr., no meu velho videocassete (essa obsolescência que, como certas partes de meu passado, mantenho por perto, cuidando contudo de fazer o mínimo uso possível).
"É um aspecto da memória brasileira esse ligado às canções", Caetano diz a Matinas. E quando começa a batucar nas cordas "Mora na Filosofia", de Monsueto Menezes e Arnaldo Passos ("Eu vou lhe dar a decisão/Botei na balança..."), é como se de repente eu nunca tivesse deixado de ser aquele adolescente de Aracaju, de trancelim no pescoço e piso de ladrilho no quarto, a caminho da prova de inglês, do vestibular, da faculdade, de olho em alguma saída da armadilha, que era como Aracaju se apresentava para mim naquele estágio. Porque o documentário me incitaria a acreditar que a vida em Aracaju era tacanha como a vida em Santo Amaro o era para a Minha Daia da infância de Caetano ("Minha Daia, o que é existencialismo?" "Existencialistas, meu filho, são uns franceses que podem tudo, que fazem tudo, e não levam essa vida tacanha de Santo Amaro!"). Ingratidões da juventude. Fazer o quê?
 Longe de Aracaju desde 1997, começo agora a me relembrar, a me recompor às 2 da tarde enquanto Caetano prossegue sua memorabilia musical com o Dorival Caymmi de "Quem Vem pra Beira do Mar" ("Quem vem pra beira do mar, ai/Nunca mais quer voltar, ai..."). Eu, como esse Caymmi bonachão, morava à beira-mar, ai. Mas, ao contrário dele, queria-me ir, ai. E, já que sou novamente aquele jovem sonâmbulo, me permito a questão: será essa a regra, querer sempre o que não temos? É claro para mim que tudo o que eu mais desejava naquele tempo era chegar à idade em que me encontro hoje. (Está lá agora Caetano cantando Custódio Mesquita e Mário Lago: "Nada além/Nada além de uma ilusão...").
Não sei precisar que tipo de ilusão aquele adolescente gostaria de estar vivendo aos 34 anos. Ser 34 anos talvez bastasse ("Hoping to cease not till death" me sopra sadicamente Walt Whitman). Mas quando o documentário chega ao ponto em que Caetano emenda "Infidelidade", de Ataulfo Alves e Américo Seixas ("Gostei de uma criatura/Sem moral, sem compostura/Sem coração, sem pudor"), e "Fez Bobagem", de Assis Valente ("Quando eu penso que outra mulher/Requebrou pro meu moreno ver/Não dá jeito de sambar/Dá vontade de chorar/E de morrer"), me dou conta de que: 1) Miles Davis só não foi sambista porque nasceu no país errado; e 2) ainda não me cansei de juntar a terra que meus sapatos catam por aí (três batidinhas são suficientes, ensinou Carlota Joaquina, com propósito oposto).
Nel mezzo del cammin Cheguei a São Paulo numa noite de neblina, ainda virgem daqui - e juro que não há uma gota de drama nisso. Apenas foi. Como foram os três meninos cheirando cola na calçada da Praça da República minha primeira imagem da cidade. Foi João Cabral quem escreveu: "Como uma ave que vai cada segundo conquistando seu voo". Na semana em que a Rede Manchete exibiu Circuladô (em quatro partes, de segunda a quinta, com a apresentação do show na sexta e de Deus e o Diabo na Terra do Sol no sábado, sessão escolhida pelo próprio Caetano), lembro que eu batia minhas asinhas num curso de violão à noite, bem na hora da sessão. Como não queria perder nem um nem outro, cuidei de deixar o vídeo programado para gravar. Aquela abertura colorida, com "Araçá Azul" como fundo musical ("Com fé em Deus/Eu não vou morrer tão cedo..."), e aquele inconformismo de Caetano vieram até mim na hora certa. E confesso, não sem algum deboche, que assisti a Circuladô pelos meses, pelos anos seguintes a ponto de decorar falas inteiras de Caetano, de Matinas, de Minha Daia, de Dona Canô.
Também aprendi aqueles sambas antigos da infância de Caetano. Na época, a onda em Aracaju era Backstreet Boys. Mas era arranhando "Cabelos Brancos", de Herivelto Martins e Marino Pinto ("Já fui moço/Já gozei a mocidade/Se me lembro dela/Me dá saudade..."), que eu me exibia para as moçoilas, pobre de mim. E tudo bem que elas não entendessem que merda de música de acasalamento era aquela. "Lembranças de um tempo", diria Amaury Jr. Ainda hoje, quando passeio à noite por São Paulo, Aracaju já transformada na cidade dos avós de meu filho, cantarolo mentalmente "Arranha-Céu", de Orestes Barbosa: "Nestes delírios nervosos/Dos anúncios luminosos/Que são a vida a mentir".
Se daquilo tudo ficou apenas uma fita VHS, uma fita VHS que neste exato momento encerro e engaveto porque de tão gasta já não dá mais para assistir, e se, como dizem, os sambas realmente guardam momentos, então espano Caetano, espano Matinas, espano definitivamente aquele adolescente tolo que quis chegar nel mezzo del cammin, ligo o som da sala e sapateio miudinho às 3 da tarde com a voz mansa de Paulinho da Viola cantando Wilson e José Batista, que não tinham entrado na história: "Tenho pena daqueles/Que se agacham até o chão/Enganando a si mesmos/Por dinheiro ou posição/Nunca tomei parte/Nesse enorme batalhão/Pois sei que além de flores/Nada mais vai no caixão"...
André Viana é jornalista formado pela Universidade Federal de Sergipe e pós-graduado em tradução pela Universidade de São Paulo. Vive em São Paulo Há 12 anos.
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