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Por Joseane Antunes Cataldo
"Homens e mulheres de várias raças e classes sociais, construindo juntos uma só cadência musical." A frase, extraída da narração feita pelo jornalista Sérgio Cabral durante o documentário Imperatriz do Carnaval, sintetiza a paixão que mobiliza a produção do samba, uma das maiores expressões da cultura brasileira. O filme, dirigido por Medeiros Schultz, registra a preparação para o desfile de Carnaval da Imperatriz Leopoldinense no ano de 2000 − quase sete décadas após o período em que o samba surgiu, como um dos eixos principais, na produção cinematográfica brasileira.
Com um papel central de expressão da cultura das classes operárias, das favelas, dos excluídos do capital, o samba era presença obrigatória nas "comédias musicais carnavalescas" ou, como popularmente são conhecidas, as "chanchadas", que dominaram as telas do país de meados dos anos 1930 até o início dos anos 1960. Os filmes, carregados de humor e de uma "irreverente ingenuidade", traziam fórmulas simples, envolvidas em temas e na musicalidade do estilo de vida carioca. No YouTube, o Canal Memória, entre outras séries de vídeos, propõe a preservação e a divulgação dessas produções, que acabaram por se tornar verdadeiros documentos etnográficos.
Embora tenha continuado como gêmeo univitelino do cinema novo, o samba ganharia uma nova dimensão em um dos primeiros marcos dessa geração influenciada pelo neorrealismo italiano e pela nouvelle vague francesa: Rio, Zona Norte, segundo longa-metragem do cineasta Nelson Pereira dos Santos, que introduziu o legítimo samba de raiz no nosso imaginário, em 1957. "O filme é um marco ético, por mostrar a exploração dos compositores que não alcançam projeção na mídia", afirma Rodrigo Fonseca, crítico de cinema do jornal O Globo e autor de Meu Compadre Cinema − Sonhos, Saudades e Sucessos de Nelson Pereira dos Santos (Cadernos Cine Academia, 2005). "Ele é significativo como um documento da opressão do artista das áreas excluídas. E tem atuações memoráveis de Grande Otelo e Paulo Goulart", completa.
Grande Otelo vive o personagem Espírito da Luz, um sambista carioca que permeia com música sua vida. O filme é intensamente musicado. Num momento expressivo, Grande Otelo interpreta a canção "Mágoa de Sambista", do compositor Zé Keti − que em 2001 receberia homenagem, do mesmo diretor, com o curta-metragem Meu Compadre Zé Keti. Os dois longas tratam da música popular sob uma perspectiva ficcional, do ponto de vista dos personagens desenvolvidos para o roteiro, porém, conseguem transmitir a realidade que envolve a trama: a cultura brasileira. "Há uma preocupação de olhar documental, quase reverente", resume o crítico.
Em 1959, o samba ganharia projeção internacional pelas mãos do diretor francês Marcel Camus com a adaptação cinematográfica da peça Orfeu da Conceição, que ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes daquele ano e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1960 ao transpor para uma favela carioca o amor trágico entre Orfeu e Eurídice. "Orfeu Negro levou o folclore do samba para as telas mundiais, consagrando os personagens que frequentam a produção musical dos morros, das rodas", explica Fonseca. O filme, cuja trilha sonora marca o início da parceria musical entre Vinicius de Moraes e Tom Jobim, foi refeito em 1999, agora sob o nome de Orfeu, por Cacá Diegues, um dos maiores ícones do cinema novo brasileiro. Os 40 anos que separam as duas adaptações da peça escrita por Vinicius entre 1940 e 1956 produzem uma brutal mudança nas favelas cariocas, agora dominadas pelo tráfico de drogas.
Gingado na retomada O samba já não seria tão presente no chamado cinema da retomada, posterior à crise que sucateou a indústria cinematográfica brasileira na primeira metade da década de 1990. Mas "o gênero musical renasce com a safra documental que brota [nesse período]", resume Fonseca, para quem o documentário Paulinho da Viola − Meu Tempo É Hoje, de 2003, com direção de Izabel Jaguaribe, é um ícone da relação que se estabelece entre a geração de cineastas de Fernando Meirelles e o samba. "O cinema hoje abdica, filme a filme, do fardo sociológico que carregava na década do cinema novo, preocupando-se mais em captar o estilo pessoal dos artistas retratados."
Dirigido por Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda, O Mistério do Samba enfoca mais a preservação da memória do que as reflexões sociais. "Essa modificação vem acentuando a dose de etnografia nesses filmes", pontua Fonseca. Lançado em 2008, o filme concentra-se nas memórias da velha guarda da Portela, tendo como guia a cantora Marisa Monte. Entre outras experiências, a equipe frequentou rodas de samba, desfiles da Portela e o bairro Oswaldo Cruz, localizado na zona norte do Rio de Janeiro. "O resultado é um mergulho na intimidade de um universo único", declara o texto que descreve o processo de construção do filme, encontrado em seu site.
Radiografia audiovisual Os documentários Samba, de Thereza Jessouroun, e Imperatriz do Carnaval, de Medeiros Schultz, ambos de 2001, são modelos que também privilegiam a vivência com o objeto de estudo. Thereza preocupou-se em retratar o samba como a TV comumente não mostra, nos grandiosos desfiles de Carnaval: a emoção de moradores do Morro da Mangueira, explícita em depoimentos, nos movimentos corporais da dança, no cotidiano das pessoas que constroem a culminância vista na avenida. "As possibilidades são infinitas", afirma Gustavo Melo, um dos roteiristas do grupo Nós do Morro. "É um universo que vai desde a elite − os bicheiros e a televisão, que são quem patrocina − até os mais pobres, que são quem verdadeiramente coloca a escola na rua." Mas Fonseca faz um alerta importante sobre essa relação entre o cineasta e o samba: "A intimidade que a vivência pode criar deve ser compensada com distanciamento crítico, para evitar paternalismos".
Para dirigir Imperatriz do Carnaval, o documentarista Medeiros Schultz deu os primeiros passos de sua pesquisa em ambientes virtuais. Após conviver com as ruas de São Paulo na infância e adolescência, passou a morar nos Estados Unidos, onde estudou cinema e teve a ideia de retratar − do começo ao fim − o processo de preparação das escolas do Rio para o desfile de Carnaval, apesar do ainda parco conhecimento sobre o assunto. "O que sabia de samba eram coisas genéricas. Via o Carnaval como uma expressão popular característica do Brasil, fundamentada em estereótipos", admite Schultz, dando exemplos dessas visões: "O brasileiro é festeiro, o Rio é uma party town, o Carnaval é uma festa depravada etc.".
Em um de seus acessos à internet, conheceu o jornalista Felipe Ferreira, pesquisador do Carnaval, que o apresentou, pessoalmente, à maioria das escolas de samba do Rio de Janeiro. O diretor optou pela Imperatriz Leopoldinense, onde foi acolhido calorosamente. "Acho que teria sido bem-recebido pelas comunidades das outras escolas também, porque essa cordialidade e simpatia são características dos cariocas de modo geral, e da zona norte da cidade em particular", garante Schultz.
Ao todo, foram nove meses de pesquisas intensas e filmagens dentro da Imperatriz, mostrando desde a composição do samba até o desfile das campeãs − a escola foi vencedora no ano em questão: 2000. Schultz acredita que o resultado obtido com o documentário − extraído de um material bruto de 50 horas de gravações − ajuda a desconstruir os estereótipos erguidos tempos atrás. Durante seu lançamento, no Cine Odeon, no Rio de Janeiro, o filme foi citado como "a melhor radiografia audiovisual já feita da preparação de uma escola de samba para o desfile de Carnaval", pelo jornalista Sérgio Cabral, referência no assunto e responsável pela narração do longa.
"Foi durante as filmagens que tive, aos poucos, um insight que considero dos mais valiosos: que o universo do Carnaval de escolas de samba é tão rico, em termos humanos, que alimenta uma verdadeira cultura paralela. As pessoas que vivem nele respiram e transpiram Carnaval o ano inteiro; é uma parte fundamental de suas vidas", declara o diretor. Percebendo a riqueza desse universo, as emissoras de TV a cabo somam mais um ponto a favor na produção e na distribuição de documentários do gênero, "em especial o Canal Brasil", como cita Fonseca.
Joseane Antunes Cataldo é estudante de graduação em produção audiovisual da Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro.
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