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agosto setembro
2010


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Por Ronaldo Bressane

Um cano jorra água do lado esquerdo do palco do Oba-Oba. Primeiro de novembro, 22 horas, do camarim João do Morro anuncia sua presença no pagode de Camaragibe, Grande Recife: "Já tô aqui na área... só tomando meu energético. Bora catucar?". Enquanto o astro faz hora na tosca salinha ao lado do palco, dois assistentes fecham o cano com fita isolante: a água vaza sobre os fios que ligam as caixas de som aos instrumentos... e à rede elétrica. Aí Os Cara, a banda de João, sobe, e o set de percussão, formado por cinco moleques entre 15 e 19 anos, senta a mão no afoxé como se não houvesse amanhã. Debaixo de 45 graus, quem liga para algum futuro? "Sooou... João do Morro eu soooou... E ninguém vai me segurar!", entra na ginga o negão de black power. De sandálias de couro, para não levar choque: em palcos mais seguros, João prefere cantar descalço.

Eletricidade é o que há no show de João Pereira da Silva, 30. Depois do pot-pourri mexido com grito de arquibancada, o compositor surgido no Morro da Conceição, um dos "altos" tradicionais do Recife, umbigo do populoso bairro de Casa Amarela, emenda com "Papa-Frango". Pode-se descrever a canção como uma crônica que versa a respeito da relação de dupla exploração, sexual e argentária, entre um heterossexual pobre e um gay rico - o "frango". Antes de arriar a suingueira - que é derivada do pagode baiano, surgida por volta de 2005, subproduto do samba-reggae, com reforço na percussão -, João dá a letra: "A moda agora é ganhar sapato do frango, calça do frango, camisa do frango, boné do frango, relógio do frango, celular do frango! Sem discriminação! Hoje em dia o mundo é gay!". No sufocante gargarejo da plateia, tomado por boyzinhas caldo-de-feijão gingando redondas lombas de quem subiu muita ladeira, despontam também machões de bermuda & bombeta exibindo muques definidos saindo pelas regatas, lourinhos rebolativos, damas duronas e morenaças de duvidoso gogó. Sem discriminação: o povo quer é greiar.

Tem quem não ache graça. Em agosto de 2008, João foi denunciado no Ministério Público pela ONG Leões do Norte, que considera a canção de conteúdo homofóbico: "A música 'Papa-Frango' incita à violência contra homossexuais", esbraveja Wellington Medeiros, presidente da ONG. "Ele se refere ao gay como um animal; e parece que qualquer relação homossexual é mercantilista", detona o ativista. A representação dividiu o mundo gay recifense; para muitos, como o poeta tropicalista Jomard Muniz de Brito, a música é uma brincadeira que ecoa costumes do início do Brasil - "os índios já tinham essa lógica mercantilista no sexo, escambando peles, cocares e lanças por uma noite de amor", escreveu. João se defende: "Quem ama dá presente. Por que o boyzinho prefere dizer que é bancado por uma viúva bem de vida e não assume que ganhou uma camisa e um boné de um frango? O preconceito está nele, não em mim. Só fiz essa música para provar que por trás de um boyzinho amostrado tem sempre um frango estruturado", ri.

Por causa dessa denúncia, em 2009 seu show no RecBeat (festival de rock que acontece dentro do Carnaval recifense) foi quase cancelado, uma vez que a folia é bancada por dinheiro público. Mas, embora o processo ainda não tenha se encerrado, João driblou o constrangimento legal para encarar um desafio maior: o público do RecBeat. "Tinha medo de virar outro Carlinhos Brown", conta, lembrando do episódio em que o baiano tomou uma ducha de garrafas plásticas da audiência roqueira no Rock in Rio de 2001. Quando João entrou no palco, havia meia dúzia de gatos pingados e chovia canivete. Três minutos depois de "Papa-Frango", o lugar foi dominado por 10 mil pessoas. Fim do show, o rei do Morro da Conceição chorava feito pirraia - ali sacava que sua música tinha ultrapassado o povão para ganhar o público indie.

Outra pedra no caminho descalço de João do Morro tinha sido o show no Galo da Madrugada. Maior bloco de Carnaval do mundo, o Galo não permite que grupos convidados toquem ritmos não pernambucanos. João teve de adaptar suas suingueiras para frevo e maracatu. "Só não entendi por que o Calcinha Preta e o Calypso não precisaram mudar o som deles. Mas não tem problema, até estou pensando em lançar um CD com essas versões de Carnaval", investe João. Sem discriminação: o mundo é diverso, e na real do Oba-Oba, para horror dos pernambucanos arraigados que já saem da mãe de guarda-chuvinha na mão, o que pega mesmo é a suingueira.

Umas mil pessoas, 20 anos em média, pagam 5 reais para entrar no Oba-Oba (7 reais o camarote), virar latinhas de cerveja a 2 reais e rebolar com selvageria de assustar frequentador de baile funk. Em clima viajandão, "As Nega Endoida" é ode ao loló, L.O. ou "sucesso", inalante semelhante ao carnavalesco lança-perfume: "Inventaram um novo nome para o L.O./Tão falando que é 'sucesso'/Eu achei melhor!/ Fica mais suave/Não me manja, não?/ Bota na latinha ou no algodão/ Bota um canudinho e dá uma puxadinha/Dá pros boyzinho, dá pras boyzinha/Olha que esse suingue vai virar moda/E quando as nega dá um porre.../As nega endoida!". Na muvuca, uma suada boyzinha sugava o seu "sucesso" de dentro da latinha de cerveja e pedia tapinhas a seus parceiros de salão - e peteleco na frente, peteleco atrás, dá-lhe! Tadinha, a erótica dança foi atrapalhada pela treta entre torcedores do Náutico e do Sport que se cruzaram bem defronte à sua pequena área - mas, antes da quinta voadora, os seguranças já laçavam gravatas imobilizadoras nos exaltados pagodeiros: rua.

"Uma vez, num show para uma rádio, lugar aberto, vi um cara pegar uma camiseta, enrolar no cano e estourar a cabeça de um cabra. Bem na minha frente!", gritava ao meu ouvido um dos produtores, Guilherme Bota. "Mas em baile como esse só rolam mesmo brigas por futebol ou ciúme, gaia. Já em boate gay e casa noturna bacana não pega nada. Durante o show, mesmo sendo do João, briga é difícil - e ele já tocou para todo tipo de público, de baile universitário a festa de ministro. É que o cabra olha para o palco, vê o João zuando e perde a vontade de ir pro pau", desenrola. O dono da casa, um redondo vereador com pretensões à prefeitura, interrompe o show para fazer proselitismo em cima do sucesso de João. "Assim como este talentoso compositor veio do morro e está fazendo sucesso em todo o estado, comigo a voz humilde de Camaragibe será ouvida nas instâncias superiores do poder", discursa o gordinho, sotaque de filho de usineiro.

Felizmente o recado é rápido, o proprietário vaza do palco e o cantor emenda seu maior hit, "Balaiagem", em que narra as agruras de uma boyzinha de cabelo alisado e pintado ao pressentir a chuva chegar-lhe desfazendo a peruca. "No fim de semana/é meio banho de noiva/tem mulher que vai no salão/pra dar massagem e escova/e passa o dia inteiro no estica e puxa/Se bater um pingo da chuva/o cabelo fica feito bucha!/As meninas tão correndo/com medo da tempestade/porque deram uma pisa/uma pisa e balaiagem.../Umas passam Easy, outras Biorene/Henê, Hairfly, Guarnidina e Kolene/Olhe que seu cabelo vai cair todinho/Você vai ficar careca feito Zidane e Ronaldinho!" A balaiagem californiana é tratamento de beleza que dá luminosidade às pontas e efeito de profundidade aos fios. Um toró e foi-se a fantasia. Perto dessa certeira e fuleira antropologia da estética, nem Lévi-Strauss seria tão sintético ao discorrer sobre contradições e diferenças entre classes, ficção e realidade, cru e cozido.

Mas não é só a periferia o alvo de João - e esse é um de seus gols. Apertado numa regata que deixa escapar de leve a trêmula pancinha, o musculoso cantor de ágeis 1,85 metro e cem quilos tira onda mordaz dos novos-ricos da tecnologia, em "3 Segundos". A guitarra baiana emula o toque da chamada a cobrar e tome: "Não adianta comprar celular que bate foto, filma, baixa jogos na internet, com bluetooth, slim, 3G... Pra ligar 3 segundos?!/Já virou moda ter um celular/Você encontra em qualquer lugar/Seja um mendigo, carroceiro, papeleiro, maloqueiro, maconheiro, tem um celular/A moda agora é ter um celular/pra bater foto ou então filmar/mas no fim do mês/bota 10 ou 5 conto/e não gasta 1 centavo na hora de telefonar". Aí é que o classe média endividado com a operadora telefônica, o qual adora exibir seu iPhone, se abre todo e deixa cair. "É coisa de homem liso/É coisa de mulher quebrada/Celular pai de santo/ Só recebe!"

Na boca do beautiful people

Nas trincheiras da música independente, ligada tanto ao manguebeat quanto ao pop, a acolhida da música de João, mesmo com cheiro de axé - desdenhado por cem entre cem pernambucanos de raiz -, não poderia ser melhor. China, frontman do DelRey, provoca: "E daí que seu som é suingueira? Não precisamos negar essas coisas e também não precisamos teorizar sobre João. Ele é só um cara engraçadíssimo que descarrega ironia nas letras. Não hesite em ver o show, pois o cabra improvisa toda hora. Vamos nos divertir e pronto, criançada", pede.

"João do Morro tem humor de mestre: a gente acha que está rindo dele, mas ele é que está rindo da gente. Não é um simples cronista da periferia, porque também é corrosivo com a classe média, e aí reside o segredo da sua popularidade. Para além da polarização entre subúrbio e zona sul, suas letras brincam com o absurdo do cotidiano", reflete o repórter Schneider Carpeggiani, que cobre cultura no Jornal do Commercio. Seu colega de redação, José Teles, autor de Do Frevo ao Manguebeat (Editora 34, 2000), é cético: "Ele é desses fenômenos sazonais que acontecem na base do boca a boca. Parece ser um cronista da periferia, embora às vezes entre na onda do duplo sentido, banalidade das bandas de fuleiragem music". Escritor baseado em São Paulo com militância cultural conhecida em Hellcife, Xico Sá atenta para a forma de divulgação com que o compositor conquistou de zé-povinho a moderninhos: "Ele está no hit parade das publicicletas, as carrocinhas movidas a pedal que zanzam pela cidade vendendo CDs piratas. É dos poucos caras que souberam aliar o moderno MySpace à arcaica publicicleta", pontifica.

DJ Dolores, egresso do manguebeat de primeira hora, desmistifica: "Ele é perspicaz ao ver o ridículo da população que se arrasta nas ruas do Recife com cabelos tratados a chapinha, celulares caros sem crédito para completar a ligação, bichas velhas e seus protegidos, o moralismo sem freios, a sacanagem cotidiana, aberta, tudo com honesta brutalidade", diz. "Suas crônicas cantadas representam os desejos e os incômodos do povão, enaltecem a vida dos morros e das favelas, embalados pela suingueira, por cervejas e bundas sacolejantes. Diferente dos clones dos Racionais MCs, ricos em rimas e de conteúdo rancoroso, a política de João do Morro é tão ou mais poderosa ao assumir a alegria dos que não têm voz e quebrar barreiras de construção do bom gosto/bom-mocismo da classe média. Rir de si mesmo é inequívoco sinal de inteligência - e isso ele sabe fazer muito bem." Nesse ritmo, claro que João chegaria ao cinema: ele é tema de Do Morro?, documentário da jornalista Mykaela Plotkin em processo de finalização.

Nossa Senhora da Balaiagem

Em 1904, o antigo Outeiro da Bela Vista ganhou uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, inaugurando um tradicional ciclo de romarias, procissões e festas profanas em um morro povoado por terreiros de umbanda e candomblé - celeiros de inúmeras escolas de samba e grupos musicais como o Cordel do Fogo Encantado, que dali importou os percussionistas Nego Henrique e Rafa Almeida. A dupla tem como pupilo um músico da banda de João, seu sobrinho, Rafael Vovozona, talentoso ritmista de apenas 16 anos. Na casa de João, horas antes do Oba-Oba, Vovozona gentilmente oferecia água, CDs, sofá e cadeiras à reportagem. Percussão é também o berço de João, uma vez que seu pai, ex-oficial da Aeronáutica, é emérito multi-instrumentista da Galeria do Ritmo, uma das maiores escolas de samba da cidade.

O pai iniciou o filho nos mistérios do teleco-teco ao mesmo tempo que o filho aprendia, em um conservatório do Morro, a traduzir suas ideias para... a flauta doce. "De madrugada, vou para o quarto, pego as letras que rabisquei de dia e fico enfiando uma musiquinha nelas com a flauta", surrealiza João, voz mansa, humilde e direta, atravessada por causos e gargalhadas. Em um braço está seu segundo filho, Rafael, de 6 anos (mas com tamanho de 12); na outra mão, um grosso maço de folhas. "Tenho mais de 70 músicas inéditas", mostra o compositor, pai também de uma filha adolescente, com outra mãe - está no terceiro casamento. Há sambas para tarados, mulheres infiéis, carroceiros, paparazzi, aproveitadores, aviões do tráfico, travestis, malucos: um universo que requisitaria mais uns 20 discos e outra reportagem para ser explorado.

O sucesso é coisa de dois anos. Entanto, a labuta no batuque começou aos 20 - sempre rebatida pelo trampo num açougue do Carrefour. Enquanto de dia pegava no cutelo, na noitada João vagava por bandas de pagode; muitos refrões, músicas, bordões e passinhos de dança adotados por outros grupos eram invenção dele, mas ninguém sabia. "Aquilo foi me dando uma doideira, até que resolvi virar músico em tempo integral", recorda. Na mesma época, João tomou outra decisão radical: parou de beber. Não por acaso, na mesma época descobriu Bob Marley, ídolo maior e inspiração para enfumaçados sambas de feição psicodélica.

Com o primeiro disco, Chupa que É de Uva, João do Morro tem chegado aos ouvidos de quem os tenha no Recife. Além do MySpace e da pirataria estimulada pelas publicicletas, o CD já foi brinde para quem comprasse o famoso mungunzá que a mãe prepara todo domingo na Conceição. João calcula só ter distribuído 20 mil cópias - "mas sei de carroceiro que vende 80 discos meus por dia", contabiliza. Claramente o CD é plataforma para João faturar com seus sensacionais shows, que já chegaram a 17 num único fim de semana. Naquele domingo, João havia voltado para casa após uma romaria por quatro lugares diferentes da Grande Recife. Estava chateado: "A hora que cheguei, o mungunzá da minha mãe já tinha acabado...", lamentava, fazendo biquinho, piscando os cílios lapidados com curvex.

O micro-ônibus o espera para a romaria pré-Finados: às 10 horas o show no Oba-Oba, à meia-noite na mauricinha casa Manicômio, em Olinda, e às 3 da manhã em outro salão em Jaboatão dos Guararapes. Antes de sair, João se veste todo de branco, olha calmo o retrato do Cristo na parede, pede a bênção aos pais, que em frente da casa tomam o vento do Recife aos baldes, beija o filho e encara a descida - com o suingue de quem sabe que, para subir, bastam um passinho e uma piada.
 

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