|
Por André Seiti
Em 1971, o norte-americano Chris Burden entrou em uma galeria californiana e se posicionou em frente a uma parede. Em seguida, um atirador, carregando um rifle calibre 22, apareceu em cena. Não pensou duas vezes, e, a 4 metros e meio de distância, disparou contra o braço esquerdo de Burden. Uma câmera filmou tudo, e a obra, denominada Shoot, passou a ser considerada uma das mais controversas performances artísticas já realizadas. Três anos depois, Marina Abramovic, artista nascida na antiga Iugoslávia, realizou, em uma galeria italiana, a performance Rhythm 0, na qual os espectadores teriam a possibilidade de mutilá-la e matá-la. Após pintá-la, arrancar suas roupas e cortá-la, o público decidiu interromper a apresentação, pois alguém chegara ao ponto de apontar uma arma carregada contra a cabeça da artista.
Essas experiências demonstram que, nas décadas de 1960 e 1970, a relação entre o corpo e a arte, questionamento despertado, entre outros, pelo francês Marcel Duchamp e pelo americano Jackson Pollock, mudou radicalmente. Diversos artistas passaram a desenvolver o que ficaria conhecido como body art. Desde então, experimentações com o corpo são feitas, e muitas delas em um nível de extrema violência. O body artista Filipe Espindola, dono de um estúdio de arte corporal em Campinas, São Paulo, que há dez anos pesquisa e produz performances com perfuração (piercing), tatuagem, queimadura (branding) e escarificação (corte), reconhece que seu trabalho é doloroso. "Considero-o necessário para o meu corpo, sendo às vezes agressivo, mas de uma agressividade controlável e benéfica, como uma vacina que inocula o próprio agente causador da moléstia para evitá-la ou curá-la." Quanto ao caráter violento de suas performances, Espindola rebate que "é uma forma de violência, como é violento e necessário o ato de podar uma planta, mutilando-a para que ela se fortaleça e se renove".
| Priscilla Davanzo costura objetos em seu corpo, na performance Pour Être Plus Belle et Efficiente | imagem: Patrícia Cecatti |  |
Mas nem todos os body artistas consideram seu trabalho uma violência corporal. A artista visual paulistana Priscilla Davanzo questiona a relação entre body art e violência nos dias de hoje. "A partir da década de 80, a função de expor a entranha, ou de colocar o corpo no limite físico, ou mesmo de romper esse limite não é mais a de criar situação de violência." Priscilla, conhecida por trabalhos como As Vacas Comem Duas Vezes a Mesma Comida, no qual tatuou manchas de vaca pelo corpo para contestar a condição humana, já realizou performances em que costurava ornamentos em seu corpo ou em que corpos de voluntários eram escarificados com bisturis para deixar impressões com sangue em folhas de papel. "Questiono até quanto o fruidor se dá para a arte, até que ponto ele pode participar", explica. "Não sei se é algo que tem a ver com violência; o violento está muito mais em quem está vendo."
Tanto Priscilla como Espindola concordam em um ponto: a violência contra seus corpos em seus trabalhos, se de fato existe, é relativa. "Sabemos que existem dores controláveis e até cotidianas, muito praticadas, como as provocadas por certos penteados, tratamentos de beleza, exercícios físicos e práticas esportivas", explica Espindola. Priscilla segue raciocínio semelhante: "Se a arte cria imposições violentas para o corpo, os aspectos sociais não criam imposições muito mais violentas?", indaga. "É normal que todo artista, em seu processo de criação, tenha um momento de sofrimento, que pode ir do psicológico ao físico."
Ossos do ofício
Não é apenas de forma voluntária que artistas têm seu corpo modificado pela arte. De acordo com a pesquisadora e bailarina paulistana Maíra Spanghero, que começou a praticar balé para se recuperar de uma infecção nos ossos, movimentos físicos realizados repetidas vezes podem gerar algum tipo de violência contra o corpo. "Qualquer aprendizado de habilidade é agressivo no sentido de mexer com padrões de movimento e comportamento até então estabilizados." Segundo ela, o balé ensinado atualmente, que incorpora conhecimentos mais recentes de fisiologia e fisioterapia, procura respeitar certos limites do corpo. Maíra, que diz nunca ter sofrido problemas graves por causa da dança, a não ser os "ossos do ofício" como pequenos estiramentos, dores pelo corpo e uma torção no tornozelo, acredita na função do corpo como reflexo do trabalho do artista. "O corpo é índice e mídia das informações que o tocam e o contaminam", afirma.
Se problemas físicos com artistas são recorrentes devido à alta e, muitas vezes, agressiva carga de trabalho à qual estão expostos, também não são raros os profissionais que trabalham no tratamento desses artistas. De acordo com João Gabriel Marques Fonseca, pianista, professor da Escola de Música e da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e especialista no tratamento de músicos, "os problemas ocupacionais (aqueles gerados pela atividade profissional) mais freqüentes entre músicos são os que envolvem músculos, articulações e nervos no tronco e nos membros, principalmente os superiores". Porém, um dos problemas mais temidos não necessariamente está ligado ao exercício da profissão. "A doença que mais incapacita músicos é a distonia focal, um distúrbio neurológico que produz movimentos anormais involuntários que prejudicam ou até mesmo impedem os movimentos necessários à performance", explica.
Um caso conhecido de distonia focal é o do pianista paulistano João Carlos Martins, que, por causa de dois episódios - um acidente enquanto jogava futebol, em Nova York, e um assalto em Sófia, na Bulgária -, teve de para de tocar. "Ele chegou a fazer tratamento conosco, mas infelizmente os resultados foram ruins", afirma o professor. Após ser vítima de um tumor benigno em uma das mãos, devido aos esforços repetitivos, Martins abandonou o piano e passou a se dedicar à regência de orquestras. Por causa de sua dificuldade em segurar a batuta, exerce o comando dos músicos com o auxílio de sua expressão corporal. Para Fonseca, que junto com outros profissionais da saúde fundou o ExerSer - Núcleo de Atenção Integral à Saúde do Músico em Belo Horizonte, as lesões são comuns pelo tipo de atividade, que envolve repetição de gestos de altíssima complexidade e pouca consciência corporal, o que contribui para "posições viciosas que acabam por lesar o músico". Ossos do ofício.
|