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Por Thiago Rosenberg
Os policiais parecem não ter nome nos recentes filmes nacionais de ficção que abordam a violência urbana. Sem nome e sem qualidades individuais, quase não constituem personagens. Com o aguardado longa-metragem Tropa de Elite, cuja estréia está prevista para o dia 12 de outubro, o cineasta carioca José Padilha modifica a situação: não apenas batiza os policiais de seu filme, como também os eleva ao patamar de protagonistas. Protagonistas de uma guerra nada particular, de um conflito extremamente complexo, que envolve, além dos traficantes de drogas e dos oficiais do Estado, toda a sociedade.
Padilha já abordou a violência urbana no documentário Ônibus 174, de 2002, que investiga a trajetória de um excluído social. Agora, é com base no ponto de vista de um oficial do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), interpretado por Wagner Moura, que o enredo é conduzido. O cineasta comenta, nesta entrevista realizada por telefone, algumas das questões que envolveram a produção e o lançamento do filme, como o vazamento de cópias piratas de uma versão inacabada da obra. Trata-se do lançamento nacional mais polêmico do ano, mas ainda assim Padilha não se mostra pretensioso. "Filme nenhum muda a realidade", diz. "Seria uma pretensão incrível um cineasta achar isso." | Traficantes em guerra em cena de Tropa de Elite | imagem: David Prichard |  |
O jornal noticia hoje os mais diversos tipos de violência - física, política, cultural, moral. Qual postura o cineasta deve assumir diante de tais violências? Uma postura semelhante à do repórter? Acho que não existe uma instrução normativa, nem moral nem ética, que diga como o cineasta deve proceder. Cada um tem sua ética e seus valores - e quem sou eu para dizer aos outros como eles devem fazer? E isso vale para qualquer profissão. Não existe uma posição ética comum a todos os jornalistas, a todos os advogados, políticos etc. A postura que as pessoas, no caso os cineastas, tomam em relação ao seu trabalho depende muito mais da sua educação e da sua ética do que do trabalho em si.
Você abordou a violência urbana no seu primeiro longa-metragem para cinema, o documentário Ônibus 174, e agora na ficção Tropa de Elite. O retorno à temática da violência é casual ou intencional? As duas coisas. O Ônibus 174 foi lançado em uma safra de filmes brasileiros que tratava da violência urbana, e eu comecei a perceber, durante a produção do documentário, que todos eles abordavam o assunto do ponto de vista do excluído social que se tornou um criminoso. Não havia nenhum filme que trabalhasse o tema do ponto de vista do policial. E eu acredito que não é possível entender a violência urbana no Brasil sem entender a instituição policial; ela não é um detalhe. Se você observar a cinematografia americana, há um milhão de filmes de policiais, e eu sempre me perguntava: por que não há nenhum por aqui? Então resolvi criar um filme de policiais no Brasil. Agora, eu não tenho nenhuma questão programática relativa à violência. No momento, por exemplo, estou com dois filmes na ilha de edição; um sobre antropologia cultural e outro sobre a fome. E ambos foram iniciados antes de Tropa de Elite, porém este ficou pronto primeiro.
A realidade violenta da cidade é mais bem retratada na ficção ou no documentário? Não existe uma verdade absoluta para essa pergunta. Eu não acho que o fato de uma obra ser caracterizada como documentário ou como ficção determine, a priori, se ela vai retratar melhor ou pior certa realidade.
No caso de Tropa de Elite, então, por que você optou pela ficção e não pelo documentário? Não era exeqüível como documentário. Eu fiz uma pesquisa extensa, na qual conversei com vários policiais, médicos e psiquiatras da polícia, e nenhum deles queria falar, na frente das câmeras, o que me falaram longe delas.
Sobre o livro Elite da Tropa [de André Batista, Luiz Eduardo Soares e Rodrigo Pimentel]... O roteiro do filme [de autoria de Padilha, Bráulio Mantovani e Rodrigo Pimentel] é original, não é uma adaptação do livro. E o livro, por sua vez, não é uma adaptação do roteiro; ele é outra coisa. O livro aborda, na primeira parte, quase que essencialmente o Bope. O filme é diferente, ele não é apenas sobre a polícia. Ele diz respeito, na minha interpretação, ao fato de que convivem nas cidades brasileiras grupos sociais que têm éticas incompatíveis. Na ética de um policial corrupto, subir o morro para dar tiro em bandido é burrice; na ética de um policial honesto da tropa de elite, a corrupção é inaceitável; na ética de alguns estudantes da classe média, o consumo de drogas nada tem a ver com a guerra no morro. O que o filme diz, de certa maneira, é que essa não é uma guerra particular, entre policiais e bandidos. Essa é uma guerra de todos nós: do sujeito que trata mal o policial; do sujeito que corrompe o policial; do sujeito que consome drogas, sabendo que o dinheiro investido financiará bandidos armados que dominam favelas e tiranizam a população local; do policial corrupto etc.
Um contraponto ao documentário do João Moreira Salles e da Kátia Lund [Notícias de uma Guerra Particular]? Não diria um contraponto. Porque o documentário, embora se chame Notícias de uma Guerra Particular, não trata aquilo, no fundo, no fundo, como sendo uma guerra particular.
Não foram poucos os percalços sofridos durante a produção de Tropa de Elite. O vazamento de cópias piratas do filme foi um deles. Você vê a pirataria como uma forma de violência contra o trabalho dos cineastas ou como uma maneira de democratizar o acesso à cultura? Eu não acho que a pirataria seja um assunto prioritariamente relativo à cultura. Eu já discordo dessa premissa básica do raciocínio. É recolhido imposto sobre aquele DVD pirata que é vendido na rua? Não. Então, para começar, a pirataria é um assunto econômico, ela implica sonegação. Aquelas pessoas que vendem os produtos têm direitos trabalhistas? Não. São trabalhadores informais. Ou seja, defender a pirataria em nome da democratização do conteúdo cultural é, para mim, uma atitude extremamente míope. Defender isso é defender a idéia de que a divulgação do conteúdo cultural justifica a sonegação de impostos, o trabalho informal, a corrupção policial. A cultura que a pirataria divulga não é a cultura que está no conteúdo da obra pirateada, mas, sim, a cultura da sonegação, da informalidade, da corrupção.
A antecipação da estréia do filme - de novembro para outubro de 2007 -, causada por esse vazamento de cópias piratas, prejudicou de alguma maneira a obra em si? Ela teve de ser finalizada às pressas ou já estava concluída? Não prejudicou a obra em si porque eu já havia finalizado a montagem, já havia montado a versão de cinema. Mas, como a versão que vazou para a pirataria não é a final, isso me prejudicou no seguinte sentido: é como se eu fosse um escritor e alguém roubasse e publicasse o rascunho de um livro que eu ainda não publiquei. Fico muito chateado porque o meu filme não foi visto por muitos como eu pretendia que fosse visto. Não o viram da melhor maneira possível, da maneira certa. Eles viram um rascunho do filme. E isso é um fato que independe do que as pessoas acharam desse rascunho, se gostaram ou não.
Recentemente um grupo de policiais recorreu à Justiça [sem sucesso] na tentativa de impedir a estréia do longa. Você espera outras reações violentas ao filme? A tentativa de impedir a exibição do filme é um direito constitucional de quem se acha agredido, então eu não a tomo como uma violência. Aquelas pessoas tinham esse direito e tomaram a atitude que consideravam adequada. E, antes mesmo de o nosso advogado se pronunciar, a juíza [Flávia de Almeida Viveiros de Castro] - a meu ver, com grande sabedoria - se pronunciou a respeito [ela argumentou que há na obra uma crítica genérica ao "sistema", e que este não pode ser identificado exclusivamente como o Bope ou como a Polícia Militar]. O interessante, e que as pessoas não ficaram sabendo, é que, dos oficiais que subscreveram a ação, todos com exceção de um retiraram o seu nome. Então eu não entendi exatamente o que ocorreu, mas não foi a polícia que fez isso, foi um grupo de pessoas que, em seu direito individual, fez o que podia fazer. Outras pessoas farão isso? Acho que sim. Porque o filme trata de um assunto polêmico e, apesar de ainda não ter sido lançado, já virou um fenômeno de cultura de massa, está sempre no jornal etc., e as pessoas reagem a isso, com ou sem razão. De qualquer forma, eu conduzo essa questão com calma, não fico com raiva. É normal, faz parte da democracia.
Logo no início do filme, o personagem de Wagner Moura afirma que um policial, quando sobe o morro, ou se corrompe, ou se omite, ou vai para a guerra. O mesmo vale em relação ao seu trabalho? Com esse filme, você foi para a guerra? Não. Eu fiz um filme. E acho que filme nenhum muda a realidade. Se a cultura tem um impacto relevante e promove mudanças na realidade, não é uma obra sozinha que faz isso. É a massa das obras, são várias delas em seqüência. Há uma série de filmes que, em conjunto, vai formando uma consciência sobre o tema da violência urbana - assim como os livros, as reportagens de jornal, revistas etc. Acho que isso faz uma diferença, mas um filme só não faz. E seria uma pretensão incrível um cineasta achar isso.
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