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agosto setembro
2010


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Por Augusto Paim

É meio-dia de sexta-feira, 14 de setembro, no complexo de favelas da Maré, no Rio de Janeiro. A cidade inteira está ensolarada, sem nenhuma nuvem, e aqui não é diferente. Bira Carvalho está sentado na soleira da sua casa, ao abrigo do sol. Ele veste a camiseta vermelha da seleção de futebol da Inglaterra, que faz contraste com o rosto negro e as paredes esverdeadas atrás de si. "Sou um privilegiado por fazer o que eu amo, no lugar que eu amo." Ele se refere à sua participação na exposição fotográfica Esportes na Favela, promovida pela agência Imagens do Povo, do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro. A exposição foi aberta há três dias, mas nessa sexta-feira, porém, Bira está preocupado. No próximo domingo, ele irá à Inglaterra, sozinho, ministrar uma oficina de pin-hole ("buraco da agulha", em inglês; técnica artesanal de fotografia que utiliza câmara escura e dispensa o uso de lentes) na periferia de Londres.

Carvalho foi aluno da primeira turma da Escola de Fotógrafos Populares do Observatório de Favelas, iniciada em 2004. Outro fruto da escola é o autor das fotos desta reportagem, Marcos "Ratão" Diniz, que atua na agência Imagens do Povo. Nessa mesma manhã do dia 14, alunos da terceira turma saíram a campo. Às 10h30, tiravam fotos na Vila Olímpica da Maré, aproveitando que crianças e adolescentes praticavam caratê e ginástica acrobática na quadra do ginásio.

Outros sotaques
Comunicação comunitária é alternativa para quem quer ter voz

Taís Caldas da Silva, de 16 anos, entra na sala de aula. Ela traz um jornal debaixo do braço. "Olha, eu apareço aqui", diz, mostrando a publicação para os colegas. Na capa, a turma lê o nome do periódico: Boca de Rua. Eles folheiam e outro nome aparece no topo da página: Boquinha.

Quem faz o Boca são moradores de rua de Porto Alegre. O Boquinha também, só que o encarte é responsabilidade das crianças. As matérias tratam das questões da rotina dessas pessoas, além de relatar como elas foram parar nas ruas.

A idéia é que a compra do jornal se dê por interesse, não por caridade. Os moradores de rua querem que os leitores realmente se interessem pelo que escrevem. Assim, eles ganham voz, e o restante da sociedade apura o ouvido.

O Boca de Rua é apenas uma das ações da Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (Alice), que busca fazer a comunicação entre a sociedade e seus setores marginalizados.

Em outro canto do país, num bairro de classe média de Salvador, três meninos entrevistam o filho de um cientista. Os repórteres estão longe de casa: moram na mesma cidade, só que no bairro de Alagados, onde há não muito tempo a maior parte das habitações era de palafita. A entrevista é justamente sobre a diferença entre o mundo em que vivem os minirrepórteres e o mundo em que vive o garoto entrevistado.

A matéria é para a internet, para o projeto TV Lata. Trata-se de uma TV experimental que começou a ser implantada neste ano, com a ajuda de um grupo de espanhóis. Ainda em 2007, esse intercâmbio para assessoramento se encerra, e o projeto vai ficar por conta apenas do grupo cultural Bagunçaço, em que comunidade de Alagados se reúne para discutir e realizar atividades ligadas à cultura e à arte.

Conheça outras iniciativas de comunicação comunitária no site do Onda Cidadã.



A oportunidade de ir a Londres foi dada a Carvalho pela agência Imagens do Povo, que tem entre seus objetivos o de inserir os alunos da Escola de Fotógrafos Populares no mercado de trabalho. O Observatório de Favelas também abriga núcleos de pesquisa responsáveis por programas como o Rota de Fuga, que formula alternativas para jovens em situações problemáticas como o envolvimento com o tráfico de drogas. Também há uma Escola Popular de Comunicação Crítica.

"A fotografia mudou totalmente a minha vida, foi um divisor de águas", diz Carvalho. Aos 22 anos, ele levou um tiro e perdeu o movimento das pernas, passando a enfrentar o trânsito das ruas e dos becos da Maré com sua cadeira de rodas. Hoje, passa os dias para lá e para cá, visitando projetos socioculturais, carregando no colo sua máquina fotográfica e até mesmo crianças, que se encantam com o "brinquedo" com rodas. A comunidade da Maré o considera um conselheiro para momentos difíceis, além de um exemplo, por sua história de vida.

Mesmo assim, ele está preocupado. Afinal, não sabe inglês e, além disso, é cadeirante. O longo vôo até Londres provoca-lhe ansiedade. O que não impede que da sua boca saia uma brincadeira, ao ver um menino passando com uma camiseta de super-herói: "Ei, você está sem máscara, Batman. Vira para cá para eu ver a sua identidade secreta".

Casarão de cultura
Os cerca de 30 mil moradores do morro do Vidigal, localizado entre os bairros da Gávea e de São Conrado, no Rio de Janeiro, não precisam subir muito para avistar as praias do Leblon e de Ipanema. Já da entrada da favela se pode enxergar o oceano Atlântico se esticando e se encolhendo à sua frente, conforme o andamento da maré.

A vista fica ainda mais espetacular no topo do Casarão, a sede do grupo de teatro Nós do Morro. Lá há uma espécie de cobertura, de onde se vêem, de um lado, as praias da Zona Sul do Rio e, do outro, a favela do Vidigal estendendo-se como um edredom até o topo do morro. Como a tarde da sexta está ensolarada, dá para ver ao longe barquinhos boiando no mar e pipas empinadas em vários pontos da favela.

No último andar do Casarão acontece uma reunião do núcleo de cinema. O local em que os alunos se reúnem é próximo do depósito dos figurinos, da ilha de edição e da sala de vídeo. Uma escada em espiral leva ao andar inferior, onde, em uma grande sala, ao lado da biblioteca, adolescentes ensaiam um texto. No segundo andar, o ator e cineasta Luciano Vidigal e mais uma dezena de crianças assistem à encenação feita por três meninos e uma menina. A cena mostra um homem bêbado que chega em sua casa e agride a mulher e os filhos. No fim da peça, a família se abraça.

Essa é a aula de improvisação. Os alunos estão dando os primeiros passos no teatro, e Vidigal havia lhes pedido que improvisassem sobre o tema "família". Ele sabe, porém, que a história não foi exatamente "inventada". Há 17 anos no grupo, acredita que o teatro tem o poder de revelar o que há nas pessoas. "Pode-se conhecer profundamente alguém por meio do teatro", diz. Principalmente quando os atores são novos, mais ainda quando são crianças e adolescentes.

Vidigal gosta de lidar com os conflitos que emergem da encenação, expostos ao olhar sagaz de quem sabe captá-los. Ele mesmo já teve seus conflitos e sabe o que tem de fazer. Quando é o caso, avisa uma das assistentes sociais integrantes da equipe do Nós do Morro.

A administração do grupo ocupa um andar inteiro porque não é fácil gerir mais de 450 crianças, adolescentes e adultos que freqüentam as oficinas de teatro, divididas em três turnos. Da secretaria, pode-se escutar o som de um berimbau, e a funcionária só precisa erguer os olhos para ver os alunos fazendo exercícios corporais no pátio, mais avançado no terreno em relação ao restante do prédio. De vez em quando, o canto da capoeira se confunde com a música que vem da garagem, espaço das aulas de percussão e preparação vocal.

O sol que iluminou toda a sexta-feira começa a se pôr. As luzes vão-se acendendo nas casas, e o morro do Vidigal aos poucos passa a se cobrir com um manto luminoso. O olhar do Cristo parece aprovar essa composição. No Casarão, os alunos da turma da noite chegam para as oficinas. Eles encerram essa jornada.


Augusto Paim, jornalista, é um dos selecionados pelo programa Rumos Itaú Cultural Jornalismo Cultural 2004-2005.
 


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