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Por Fernanda Castello Branco
Um flerte, um namoro ou um casamento? Qual é, afinal, a relação do design com a literatura? Seja qual for a intensidade da relação, não é de hoje que a arte gráfica se funde com a escrita. Na Idade Média, as iluminuras eram os desenhos decorativos que ilustravam alguns livros, especialmente aqueles produzidos em conventos e abadias. "As palavras dão sentido ao design e vice-versa. A relação é integral e essa unidade é a qualidade essencial do design. A forma do livro, o papel, a tipografia, a mancha de texto, os espaços, o uso de imagens, todas essas escolhas são responsáveis pela expressão do todo", afirma Elisa Cardoso, designer e capista do Máquina Estúdio (São Paulo). Para Victor Burton, um dos mais premiados designers brasileiros, "o design não pode ser mais um simples veículo de comunicação e sim o assunto em si. A forma é o conteúdo. O design fala dele mesmo: o design é a mensagem".
Tentar determinar quem é mais importante nessa relação cheia de nuances gera polêmica. "Os grandes revolucionários dessa relação entre literatura e design foram os poetas e alguns escritores, muito mais do que os designers", afirma Cláudio Ferlauto, autor de livros sobre design, entre eles O Livro da Gráfica (Rosari, 2001) e O Tipo da Gráfica (Rosari, 2002), crítico da revista Abigraf e professor da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) e das universidades Anhembi Morumbi e Belas Artes, em São Paulo. "Os revolucionários foram os autores que sacaram que essa relação era necessária, os pós-simbolistas franceses, como Apollinaire", completa.
Mais recentemente, no Brasil, o encontro de poetas com artistas visuais, no fim dos anos 1950, fez nascer a poesia concreta. Ela foi fundamental para criar outra sintaxe para o texto, com elementos poéticos e visuais, o que pode ser visto nos livros-objeto de Augusto de Campos, entre eles Poemóbiles (com Julio Plaza, edição dos autores, 1974). O neoconcretismo radicalizou essa relação e fez da forma um tipo de narrativa, o que foi redescoberto, mais tarde, pela poesia digital dos anos 1990. O artista multimídia e professor do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) Gilbertto Prado acredita que, na poesia, não é possível haver conflito entre palavra e imagem. "A poesia digital é híbrida por natureza, pela própria proposição, então não vejo conflito", afirma.
Quando se fala de poesia, aliás, é possível ir além e dizer que ela em si é uma forma de design. "Dependendo do tipo de poesia que se tem em mente, pode-se dizer que ela anda lado a lado com o design", afirma o escritor Paulo Scott. "O universo literário é imensamente mais conservador e inseguro do que o do design. A literatura vive do que já foi testado e consagrado nas outras áreas, vive das experiências das outras artes", justifica.
Enlace moderno E nos dias de hoje as novas tecnologias mudaram essa relação? "A minha geração assistiu, às vezes de forma traumática, a uma revolução na forma de trabalhar, com o advento do computador", conta Burton. "Todo um conjunto de aptidões técnicas ficou obsoleto, enquanto outros conhecimentos se tornaram vitais. Tal revolução só é comparável à passagem da tipografia para a fotocomposição", conclui.
Para a designer gráfica e capista Moema Cavalcanti, com três décadas de profissão e mais de 2 mil projetos gráficos publicados, as mudanças também são evidentes. "A mudança da capa feita artesanalmente para aquela feita no computador foi difícil para mim", relembra. "Hoje estou totalmente informatizada, mas não dispenso certos hábitos antigos. Sempre que posso, faço a mão colagens, rasgos, 'rabiscos', que ficariam muito duros se fossem feitos no computador. Procuro fazer um trabalho mais autoral", completa.
Mas a busca pelo artesanal não tira o prazer de criar com as novas tecnologias. "O computador é uma ferramenta incrível. Com ele temos infinitas possibilidades de somar tipografia, desenho, recortes, colagens, pintura", afirma Elisa, do Máquina Estúdio. "A internet é maravilhosa para pesquisar, para agilizar os processos de aprovação e finalização. A tecnologia permite que o processo seja mais fácil e prazeroso", diz.
Mesmo que alguns profissionais mantenham essa ligação saudável com o passado, na verdade a maioria admite que o ofício mudou com as novas tecnologias. "O processo virou outra coisa. Em 20 anos, tornou-se outra profissão", afirma Ferlauto. "Você leva algumas coisas para a nova profissão, mas não tem nada a ver com o que era antes. As novas tecnologias não influenciaram na criatividade, mas hoje se faz 20 leiautes em dois minutos. Isso não é criatividade, é a ferramenta o ajudando a testar mais coisas", diz.
O que poderia se esperar de uma ferramenta mais ágil e eficaz? Obviamente que ela, cada vez mais, se assuma como parte da engrenagem da indústria do livro. "O livro hoje tem de ser pensado como um objeto íntegro, que tem forma, volume, peso, textura, narrativa etc. Restringir as possibilidades de invenção contidas em um livro a um retângulo bidimensional chamado capa é muito redutor", teoriza Elaine Ramos, diretora de arte da Editora CosacNaify. "Nosso grande diferencial é não trabalhar com capistas. A capa é um dos elementos e todos eles são importantes, desde o tipo da letra até a textura do papel. É isso que seduz o consumidor", afirma.
Não é à toa que, graças a esse pensamento, Elaine criou vários projetos gráficos inovadores. Um dos destaques é o que assinou para a edição de 2005 do livro Bartleby, o Escrivão - Uma História de Wall Street, de Herman Melville, que conta a história de um jovem que trabalha como escrivão e copista em um escritório de advocacia. Ao concluir que suas tarefas estão abaixo da sua competência, Bartleby decide parar de trabalhar e apenas responde a tudo o que o mandam fazer com a seguinte frase: "Acho melhor não".
O ousado projeto criado por Elaine é inspirado no personagem e, segundo ela, "incorpora a negatividade de Bartleby". O livro é costurado e o leitor se vê obrigado a puxar a linha que mantém a capa vedada. "Depois disso, se depara surpreendentemente com um novo obstáculo: a opacidade e a opressão de uma parede cega repetida em todas as páginas, sem nada escrito. Para acessar o texto é necessário cortar (com o marcador encartado) página por página", explica a diretora de arte.
Discutindo a relação Muitas outras relações giram em torno desse "casamento" que une design e literatura. Provavelmente, a mais desgastada e complicada delas envolve autor e capista, e, em alguns casos, autor e ilustrador.
"A relação ideal seria aquela em que as pessoas tivessem noção da dimensão de cada uma das linguagens. De quando o desenho, que é silencioso, precisa da palavra. E de quando a palavra precisa do silêncio do desenho", define o ilustrador Odilon Moraes. "Às vezes o escritor resolve comigo uma questão que eu não consigo solucionar. A parceria é um ajudar o outro, é isso que eu acho que faz com que a obra seja bacana", completa.
Para Ricardo Azevedo, autor de mais de cem livros para crianças e adolescentes, o "conflito" é menos desgastante, já que ele escreve e ilustra seus livros. "Quando estou escrevendo, penso em imagens, mas quase sempre elas são muito fracas por ainda estarem presas ao texto. Só depois que considero o texto concluído, de certa forma me livro dele e consigo entrar no plano das interferências. Parece até que sou duas pessoas: uma que escreve e outra que desenha", explica.
Mas não é todo autor de livros infantis que pode se dar ao luxo de ilustrar suas obras. E o meio serve de cenário para briga de gente grande. "Essa questão só a práxis e o cotidiano podem solucionar. Mas a relação do design com a literatura infantil é dramática e extraordinária", afirma o poeta, ensaísta e tradutor Marco Lucchesi.
Muitas vezes, o conflito é maior na literatura infantil porque alguns autores têm uma marca registrada muito forte. "Em um livro de Ana Maria Machado, por exemplo, o texto se fecha. A ilustração vem depois, não participa efetivamente do livro. O ilustrador nem entra como autor, é quase um tradutor que vai buscar coisas no texto, vai abrir buracos para a ilustração participar de alguma maneira", argumenta Moraes.
Para fazer desse casamento uma relação saudável, o segredo é apostar em uma obra autoral mais coletiva. "Temos de compreender o livro de forma autoral, mas sem ser centralizado em uma pessoa", analisa Lucchesi. Tudo para que, como afirma o escritor, no fim dessa história não exista viúva. "Não chego ao extremo de dizer que o autor está morto. Mas acho que é importante recuperar a idéia sinfônica da produção do livro."
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